
A história do maior levante de escravizados no Brasil chegou às telas de cinema nesta última quinta-feira, dia 2 de outubro. O filme Malês, dirigido por Antônio Pitanga, narra a Revolta dos Malês, um capítulo na luta contra a escravidão e intolerância religiosa no País. O Cinema da USP Paulo Emílio (Cinusp) recebeu, no dia 26 de setembro, a pré-estreia do longa, seguida de um debate com o diretor e parte do elenco.
Embora tenha sido um movimento expressivo, a Revolta dos Malês foi apagada da história oficial brasileira, reduzida a apenas mais uma revolta do período regencial. “O século 19 é o mais importante deste País. Tem a Abolição, a Independência, a República, a industrialização. Tem tudo isso, mas não aparece o levante”, aponta Pitanga. “O levante foi abafado por coronéis, senhores da casa-grande, que tinham medo de que houvesse desdobramentos em outros estados e o Brasil virasse um novo Haiti.”
A insurreição aconteceu na madrugada do dia 25 de janeiro de 1835, em Salvador, organizada pelos malês — como eram chamados os africanos muçulmanos. As reuniões de planejamento envolviam leituras do Alcorão, exercícios de escrita e rezas. Mesmo com a preparação, o movimento foi antecipado após uma denúncia.
O desfecho da rebelião não foi bem-sucedido: dos 600 insurretos, 73 foram assassinados e cerca de 500 foram presos ou deportados a outras regiões do Brasil e exterior. O filme, no entanto, opta por centrar sua narrativa na trajetória dos personagens, seus anseios e particularidades, e não na derrota do movimento. “Não é a história de negro vítima, são negros vencedores. Havia uma estratégia de tomar poder contra os escravocratas, contra todo tipo de preconceito, é isso que a gente quer mostrar.”
Além de dirigir o filme, Antônio Pitanga interpreta Pacífico Licutan, uma das principais lideranças da revolta. Malês é seu segundo trabalho como diretor, o primeiro foi A Boca do Mundo (1979), considerado um marco do cinema negro brasileiro.
Com mais de 60 anos de carreira, Pitanga tem sua trajetória entrelaçada com a história do audiovisual no Brasil. Estreou em Bahia de Todos os Santos (1960), um dos precursores do Cinema Novo, e atuou em obras-chave do movimento, como Barravento (1962) e Ganga Zumba (1963). Integrou também o elenco de O Pagador de Promessas (1962), vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes. Na televisão, participou de novelas como A Próxima Vítima (1995) e O Clone (2001).
Intérprete do personagem Manuel Calafate, o ator Bukassa Kabengele destacou a importância de o longa ser exibido na Universidade de São Paulo. “Malês fala de ancestrais nossos, entre outros que lutaram pelas lutas que a gente continua fazendo até hoje.” Bukassa é filho do antropólogo Kabengele Munanga, formado pela Universidade do Congo e o primeiro professor negro da Universidade de São Paulo. Em 2023, Munanga foi homenageado com o título de Professor Emérito da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH).
Malês resgata não apenas a memória de uma revolta intencionalmente apagada da história, mas também propõe uma nova maneira de narrar personagens e trajetórias frequentemente reduzidos a estereótipos. O longa evita a fetichização da violência comum em obras que retratam a escravidão e destaca o papel da mulher negra como pilar das relações sociais e afetivas. “A gente deu luz àquela escuridão e trouxe a beleza da memória de negras e negros”, ressalta Pitanga.
O roteiro, assinado por Manuela Dias, também oferece uma releitura da figura de Sabina da Cruz (Camila Pitanga). Comerciante nagô liberta e responsável por delatar o levante, Sabina ganha contornos mais complexos na trama: seus sentimentos revelam como a chamada “liberdade” não apagava as marcas da violência da escravidão.
Alinne Maria Aguiar* Texto publicado originalmente no Jornal da USP
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