Artigo: A comunidade alternativa de Canudos

05 de Oct / 2025 às 23h00 | Espaço do Leitor

No dia de 5 de outubro de 1897, deu-se o desfecho de um dos episódios mais marcantes da história do Brasil.

Tudo começa quando o governo republicano, com o apoio de setores da elite brasileira, decide destruir a comunidade de Canudos, resultando numa das maiores carnificinas já registradas em solo brasileiro. 

Edificado por Antônio Conselheiro e seus fiéis seguidores, Canudos foi a tentativa bem sucedida – por que não dizer – de implantação de uma nova ordem social, em contraposição a todas as formas opressoras de poder experimentadas até então. 

Em Canudos, os sertanejos puderam finalmente conquistar a tão sonhada autonomia. Livres do domínio dos coronéis e conduzidos pelos ideais de uma vida nova, eles foram responsáveis pela construção dum modelo alternativo de comunidade, onde teve lugar a prática da partilha e da solidariedade. 

Em pouco tempo, o arraial havia se transformado num dos maiores aglomerados populacionais da Bahia, chamando a atenção do país e se tornando – como alegava o barão de Jeremoabo – “a questão do dia que preocupa todos os espíritos lúcidos” do Brasil. 
Completamente insubmissa aos ditames do novo regime (a República), a comunidade de Canudos não demoraria a despertar a ira das elites brasileiras, as quais resolvem apelar para o ataque. 

Em novembro de 1896, o governo, apoiado pelos latifundiários e pela cúpula da Igreja, declara guerra à “aldeia sagrada” dos sertanejos. Para exterminar Canudos, o Estado brasileiro mandou ao sertão da Bahia nada menos que quatro expedições militares, totalizando um contingente de mais de 12 mil homens em armas - mais da metade de todo o efetivo do Exército naquele momento. A capacidade bélica dos sertanejos, inicialmente subestimada, surpreendeu os inimigos.

A cada batalha travada, as forças legais sofriam novas baixas e o poder de fogo dos canudenses saía fortalecido. As três primeiras expedições, que juntas totalizavam mais de 2 mil homens, foram esmagadas fragorosamente. As sucessivas derrotas puseram em pânico o Governo da República, que passou a ver em Canudos um perigo cada vez mais assustador. Impunha-se, portanto, que se tomassem medidas mais enérgicas. Afinal de contas – acreditava-se – era o destino da República que se encontrava em jogo.

O Governo não tardou e uma nova expedição foi mandada às terras sertanejas, dessa feita com mais de 10 mil soldados. As elites, então, puderam respirar aliviadas. Canudos, finalmente, estava liquidado. No conflito, morreram cinco mil soldados e todos os habitantes do arraial conselheirista.
Era o desfecho de quase um ano de luta renhida, em que brasileiros guerrearam contra brasileiros. 

José Gonçalves do Nascimento - Escritor

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