Parte da história é omitida no turismo a cidades históricas no país

14 de Sep / 2025 às 21h00 | Variadas

Ruas de pedra, casarões e igrejas são elementos bem conhecidos do turismo em cidades históricas de Minas Gerais, como Tiradentes.

Parte importante da história, no entanto, é excluída dos circuitos tradicionais: o fato de terem sido pessoas escravizadas as responsáveis por todas as construções e pela produção econômica local.

Este foi um dos principais assuntos da mesa de debates Quando a conta é o silêncio: cemitérios apagados, memórias insurgentes, realizada em Tiradentes, no âmbito do Festival Artes Vertentes.

A mesa discutiu o apagamento das pelo menos 22 mil pessoas que foram forçadas a trabalhar na região principalmente ao longo do século 18, quando a então Vila de São José – que viria a se chamar Tiradentes - viveu da exploração do ouro e foi um dos importantes centros extrativistas de Minas Gerais.

Para o antropólogo, fotógrafo e educador Patrick Arley, que participou do debate, há um apagamento não apenas dos horrores da escravidão, mas de todos os saberes, da filosofia e cosmologia das pessoas que foram trazidas à força para a região.

“A gente fala de cidade histórica, de patrimônio, mas o que é considerado patrimônio dentro desse discurso da cidade histórica? Em geral, a gente tá falando de igreja e de casarões que pertencem a famílias que tinham dinheiro, brancas. Todas as outras formas de sagrado, todas as outras formas de cosmologia, de filosofia, de saberes que também estavam aqui nessa época, é como se não existissem”, disse.

De acordo com os debatedores, preservar a memória é também uma forma de garantir que o que aconteceu, e ainda acontece nos dias de hoje, não seja esquecido e que haja políticas públicas voltadas para garantir a equidade e para acabar com o racismo, como defende o assessor Internacional da Fundação Cultural Palmares, Boaz Mavoungou, que também participou da mesa.

“A equidade é quando a lei trata todo mundo com devido respeito e ninguém está acima do outro por algum privilégio”. 

“Somos um povo. Ainda não somos uma nação. A gente não compartilha a mesma história. Em algum lugar tem uma pessoa que tem uma lápide do avô e outro que mal sabe onde está enterrado do pai. Alguns cemitérios foram apagados intencionalmente, porque a arqueologia pode mostrar se alguém foi mal tratado”, enfatizou.

Os participantes também chamaram atenção para como é feito o turismo, muitas vezes de forma desrespeitosa, tirando fotos fingindo que se está acorrentado em locais onde pessoas escravizadas foram brutalmente torturadas.

“Seria como chegar em Auschwitz [campo de concentração alemão onde judeus foram mortos na Segunda Guerra Mundial], entrar em uma câmara de gás e pedir para alguém me filmar fingindo que estou sem ar”, compara.

O segundo dia do Festival Artes Vertentes foi marcado por debates. Outro destaque foi a mesa “Entre o Estado e a Rua: Políticas Públicas e Justiça Racial nas Margens do Atlântico”, que entre outras coisas, debateu a importância de políticas públicas para combater as desigualdades raciais no Brasil e para valorizar a cultura.

A deputada estadual de Minas Gerais Andréia de Jesus (PT), uma das integrantes da mesa defendeu a Lei Aldir Blanc de Fomento à Cultura (Lei 14.399/2022) e a Lei Paulo Gustavo (Lei Complementar 195/2022). “São fundamentais. Nós estamos descentralizando o orçamento da cultura, podendo atender de forma um pouco menos burocrática comunidades tradicionais, políticas culturais, políticas de cultura de rua. Estou falando de hip hop, do funk, que são manifestações negras”, destacou.

Ela enfatizou também que a cultura é também uma forma de “disputar cidade, disputar ideias, disputar o modelo de nação que nós queremos”, devendo por tanto ser valorizada e incentivada.

Mavoungou, que também participou dessa mesa, complementou: “A cultura é o que sobra quando esquecemos tudo. A cultura não é uma pintura, é o que ela expressa. A cultura não é uma cadeira de madeira esculpida, é o que ela conta sobre a história daquele povo. A cultura na África é o que sobra quando você esquece tudo. Aquela que te define o fundo da alma”.

Para reduzir assimetrias, Andréia de Jesus defendeu as cotas, sejam nos editais ou mesmo para o acesso a universidades. Ela defendeu também políticas que sejam voltados especificamente para as particularidades dos territórios e das populações.

“Estamos em uma mesa com três pessoas retintas de diferentes continentes e nós três estamos dizendo que sofremos racismo. Existe um elemento estético que é usado para nos atacar. E isso vai cada vez mais fazendo as pessoas e o mundo acreditarem que existem povos inferiores. É isso que a gente sofre aqui no Brasil. Por isso as ações afirmativas, para mostrar a nossa capacidade intelectual, a nossa capacidade produtiva e a nossa capacidade de gerar riqueza em qualquer lugar do mundo. Muitas vezes nós estamos disputando só o direito de ser cidadão”.

© Copyright RedeGN. 2009 - 2026. Todos os direitos reservados.
É proibida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização escrita do autor.