“Ô cadê, ô cadê as rezadeiras, ô cadê, ô cadê as benzedeiras, ô cadê, ô cadê minha parteira, o cadê o saber das mulher do meu lugar”-Mel do Cumbe
E foi assim, valorizando o saber e ancestralidade das mulheres que se iniciou a primeira plenária de Mulheres realizada como parte da programação do Semiárido Show nesta quarta-feira (27). Com o tema “Mulheres rurais: a importância das políticas públicas para o fortalecimento da Convivência com o Semiárido” promovido pelo Instituto Regional da Pequena Agropecuária Apropriada (Irpaa), ONU Mulheres e Embrapa, o espaço reuniu cerca de 50 mulheres do Semiárido nordestino.
O painel “Ações Práticas de Convivência com o Semiárido e desafios para acessar políticas públicas voltadas a mulheres rurais”, destacou como políticas públicas podem fortalecer a atuação feminina, ao mesmo tempo em que apresentou experiências que mesclam tradição, inovação e protagonismo, mostrando a capacidade das mulheres de transformar suas comunidades e garantir direitos essenciais.
Do Quintal à Gestão: A Luta por autonomia e oportunidade-Uma das vozes do painel foi a de Ana Lúcia Silva, da Cooperativa Agropecuária Familiar de Massaroca e Região, em Juazeiro, Bahia. Ela trouxe à tona a realidade das comunidades antes da chegada de tecnologias de captação e armazenamento de água da chuva, quando mulheres precisavam carregar latas d’água na cabeça. Com a implantação de tecnologias sociais, a realidade mudou, “ganhamos autonomia com a chegada da água ao lado das casas”, afirmou. Outra tecnologia fundamental que vem transformando a vida das comunidades é o saneamento rural com reúso de água, que potencializa a produção de forrageiras e frutíferas, por exemplo, além do cuidado e conservação do bioma, com o tratamento das águas utilizadas nas residências. Confira reportagem na integra IRPAA.
Segundo ela, programas e organizações da sociedade civil comprometidas foram decisivos para melhorar a vida do povo do campo e também da cidade. Ana Lúcia chamou atenção ainda para outro ponto que permanece como desafio: a garantia da terra e a defesa do território, elemento central para que as famílias tenham acesso a tecnologias sociais de Convivência com o Semiárido.
Ainda em Juazeiro, Iracema Lima, da comunidade tradicional de Fundo de Pasto Malhada da Areia, apresentou o Recaatingamento, iniciativa voltada à conservação e recuperação da Caatinga, que visa o manejo de áreas degradadas e fortalecimento da biodiversidade local. Iracema destaca que a metodologia vai além do aspecto ambiental, integrando processos formativos que contribuem para o empoderamento das mulheres nas comunidades.
A importância das Sementes da Paixão foi apresentada por Maria Gizelda, do Polo da Borborema, na Paraíba. Ela relembra que a luta pelas sementes sempre esteve no centro das batalhas do campo, e que sementes e água já foram usadas como moeda de troca por coronéis.
Na Paraíba, chamadas de Sementes da Paixão por guardarem e carregarem a história e a tradição das famílias, o trabalho de guardiãs das sementes deu origem a 60 Bancos de Sementes Comunitários, que envolvem mais de mil famílias, em sua maioria geridos por mulheres. “Pautamos a importância de guardar nossas sementes dentro das políticas públicas”, afirma Gizelda, destacando o desafio de fortalecer e reconhecer esse patrimônio. Ela também lembra a campanha “Não Planto Transgênicos para Não Apagar a Minha História”, promovida pelo Polo da Borborema em parceria com a AS-PTA Agricultura Familiar e Agroecologia, que enfrenta os riscos do avanço dos transgênicos, dos agrotóxicos, além da pressão de empreendimentos como eólicas e mineradoras.
Outro exemplo de protagonismo feminino foi apresentado por Conceição Souza, presidenta do Sindicato de Trabalhadores Rurais de Quixadá, no Ceará, assessorada pelo Esplar Centro de Pesquisa e Assessoria. Ela destacou a importância dos quintais produtivos, majoritariamente administrados por mulheres, que garantem a segurança alimentar e nutricional das famílias e os excedentes são destinados à comercialização. Foi a partir dessa iniciativa que nasceu a Bodega Agroecológica, um espaço coletivo para a venda da produção e o fortalecimento da autonomia feminina no campo.
Apesar dos avanços, Conceição apontou desafios, como a dificuldade de locomoção das mulheres para as feiras e a necessidade de ampliar o acesso aos programas de aquisição de alimentos, como o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) e o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA).
Para encerrar o painel, Gizeli Maria de Oliveira, diretora-presidenta da Central da Caatinga, destacou os desafios das mulheres à frente das cooperativas. Ela ressalta que, apesar de todo o trabalho das mulheres no cuidado, colheita e beneficiamento dos produtos, ainda há obstáculos na hora de trabalhar na gestão e comercialização.
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