Artigo: Luiz Gonzaga, Forró e Vida

31 de Jul / 2025 às 23h00 | Variadas

“Após a morte de Luíz Gonzaga, as sanfonas do Nordeste tocam em funeral. Onde estão os sanfoneiros? E as sanfonas dos 8 baixos? Estas, então, estão a caminho da extinção, sem que o poder público dê trânsito a salvaguardas necessárias e urgentes.

” Ninguém mais do que Luiz Lua Gonzaga do Nascimento contribuiu, através da música, para o conhecimento do Nordeste brasileiro. Telúrico, contou e cantou a saga nordestina, inovando com sua sanfona os ritmos, tal e qual fez com o forró e o baião, o xote e o xaxado. Uma sanfona que ele juntou ao triângulo e à zabumba, fazendo o esqueleto do Brasil remexer.  

Superando obstáculos, Luiz Gonzaga ganhou o mundo, antes residindo no Ceará e, em seguida, no Rio de Janeiro, quando a sua musicalidade ganhou dimensão, a ponto de ter merecido um busto, em sua homenagem, na Universidade de Oxford, Inglaterra. Outro busto existe na frente do Centro de Tradições Nordestinas e na Rádio Atual, em São Paulo, onde fui por mais de uma vez, numa delas, debatendo Luiz Gonzaga com o jurado Pedro de Lara.

Fui amigo de Lua, apelido colocado por Paulo Gracindo, numa referência ao seu rosto arredondado. Na sua última apresentação no Cecon, em Olinda, pude entregar-lhe uma placa em nome da Fundação Cidade do Recife, que, à época, me tinha como presidente.

Muito me emocionou a última entrevista por ele concedida à imprensa, no caso a este jornal, Diário de Pernambuco quando chegou a dizer: “(...) O primeiro grande grito do São João no Recife veio de Roberto Pereira, e o prefeito Joaquim Francisco assinou embaixo. E vai ser um estouro.”  

A sua doença, câncer de próstata, descoberta em junho de 1989, deixou-o fora do ciclo junino, uma frustração para ele. Fui dos seus amigos a cuidar dele nesse período crítico. Internado no Hospital Santa Joana, com  metástase nos ossos, Gonzaga padeceu com dores insuportáveis, substituindo os gemidos pelos aboios. Aboiar era uma forma de afastar a tristeza.
 
Em 2 de agosto do mesmo ano, 1989, chegou o dia nefasto para a cultura pernambucana. Luiz Gonzaga, imortalizado na sua arte, fechava os olhos para ganhar a eternidade. O seu velório foi na Assembleia Legislativa, onde os forrozeiros cantavam as suas músicas, a alma da gente nordestina. A missa, de manhã, celebrada por Dom Helder Câmara, para, em seguida, ouvirmos, emocionados, Fernando Borges tocar, no violino, Asa Branca, o hino do Nordeste. 

Luiz Gonzaga deixa o legado da nordestinidade, colimando-se com os maiores da música popular brasileira, muitos dos quais também compondo e cantando o forró e o baião. Da economia criativa quando se interligou ao artesanato de couro no chapéu, no gibão, nas alpercatas. Da gastronomia em seu repertório, ênfase para a Feira de Caruaru e Ovo de Codorna, dentre outras composições suas e de parceiros, a exemplo de Zé Dantas e Humberto Teixeira. Os seus ritmos ainda - e sempre! - animam a musicalidade nordestina e brasileira.

Por Roberto Pereira -Ex-secretário de Educação e Cultura de Pernambuco. Roberto Pereira é autor dos livros ‘Um olhar sobre o imaginário cultural’ e ‘Arte e cultura, pensar, livre pensar,’. Também autor do opúsculo ‘O idealismo da Confederação do Equador.’

Espaço Leitor Foto ilustrativa arquivo Ney Vital redegn

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