O tempo mudou: crise climática no vale do São Francisco

17 de Jul / 2025 às 06h00 | Variadas

O tempo mudou: crise climática no vale do São Francisco. Calor intenso, chuva que afoga: mudanças climáticas no vale do São Francisco. Confira texto de Levi Varjão e Yanne Nascimento.

Embora nos últimos dias o Vale do São Francisco esteja vivendo temperaturas mais amenas, essa não é a realidade que prevalece durante todo o ano na região. O clima local oscila entre extremos, revelando as marcas profundas das mudanças climáticas. Se hoje a brisa suave parece aliviar a rotina, não faz muito tempo que o calor intenso transformou simples gestos do cotidiano em desafios quase insuportáveis.
Imagine acordar em uma segunda-feira pensando na semana de trabalho que se inicia, sair pela porta de casa e sentir a pele queimar. Foi o que aconteceu em Juazeiro — uma das cidades que integra o Vale do São Francisco — no mês de outubro do ano passado. O município atingiu o maior índice de temperatura do ano. Segundo o Laboratório de Meteorologia da Univasf, a população sentiu na pele logo no início da semana, um calor de 38,2°C. Quem começou a semana de mau humor, ainda precisou enfrentar uma sensação térmica de mais de 40 °C.

A auxiliar administrativa Ana Soares viveu essa experiência logo ao amanhecer. quando Ana ligou o chuveiro, a água já descia morna, quase quente. Não era problema no aquecedor – não havia nenhum instalado. Era o calor acumulado do dia anterior, preso na caixa d’água, exposta ao sol do sertão baiano. Mesmo sem coragem, ela encarou aquela ducha abafada, escovou os dentes e vestiu a farda da empresa. O uniforme, limpo na noite anterior, já dava sinais de suor antes mesmo de sair de casa.
Ao pisar na rua estreita de calçamento irregular, o ar parecia pesado. O suor brotou antes da primeira esquina. O Vale do São Francisco ainda acordava, mas o calor já se fazia presente. Enquanto caminhava até o ponto de ônibus, Ana pensava em quanto tempo mais aguentaria aquele sol no trajeto. “Antes, o sol só esquentava assim depois do meio-dia”, murmurou.
Na volta, algumas horas depois, passou no mercado para comprar o básico: manga, cebola, tomate. Mas parou diante da prateleira com os olhos fixos. A uva roxa, colhida ali, na região, estava mais cara que no mês anterior. “De novo?”, sussurrou, colocando a caixa de uva de volta no lugar. Tudo parecia esquentar: a água, o ar, o bolso. 
O que não passou pela cabeça de Ana, é que todas essas questões que ela enfrentou no seu dia, estão relacionadas com um único fenômeno. 
O aquecimento global é fenômeno antrópico, causado pela ação humana, que provoca o aumento das temperaturas do planeta além do que é considerado como normal. Esse crescimento faz com que haja uma intensificação do efeito estufa, que é um processo natural que evita que a terra esfrie excessivamente.
Desde a década de 1970, a ciência vem debatendo amplamente as causas e consequências das mudanças climáticas e do aquecimento global. Por muito tempo, acreditou-se que tais desafios caberiam às próximas gerações — um fardo para filhos e netos. No entanto, várias gerações que acreditaram nisso, hoje se vêem surpreendidas ao experimentar, na própria pele, os efeitos desse fenômeno.

Segundo o ambientalista Victor Flores, durante as últimas décadas do século passado e na primeira década deste século, as pessoas que viviam na região do Submédio São Francisco conseguiam encher um local pequeno sem a presença de um aparelho de refrigeração. Essa realidade foi deixada para trás, hoje é impensável reunir um grande grupo de pessoas sem climatização no ambiente.
"Com o aumento da impermeabilização do asfalto na zona urbana, a temperatura tende a ser maior, principalmente porque não há árvores suficientes e nem um plano de arborização. Esse aumento da temperatura gera as ilhas de calor". É o que explica o ambientalista.
A falta de arborização, o aumento da concentração do tráfego de veículos na região central e o asfalto são fatores que contribuem para o aumento da temperatura e causam as ilhas de calor, mencionadas pelo ambientalista. Esse fenômeno, apesar do nome, não está somente associado ao aquecimento. Ele acontece quando uma área central da cidade concentra uma maior temperatura e afasta as nuvens de chuva para as zonas periféricas. Isso influencia os padrões pluviométricos da cidade.
Foi o que aconteceu na cidade de Juazeiro, em abril deste ano. Segundo dados divulgados pelo Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), a última precipitação que a cidade registrou atingiu 44 milímetros em menos de uma hora. Nas zonas mais afastadas do centro a situação foi ainda mais preocupante porque o volume chegou aos 86 milímetros. 

 
O Gráfico mostra que toda a chuva registrada durante o mês se concentrou em único dia. Os bairros mais afetados foram Tabuleiro, Itaberaba, Nossa Senhora das Grotas, Lomanto Júnior, Alto do Cruzeiro, Alto do Alencar, Alto da Aliança, Piranga e João XXIII - todos eles bairros periféricos da cidade.

A crise também é social-Além de precisar lidar com o calor extremo, a população tem outra preocupação climática e social: ter a casa alagada pela chuva. Dona Harleide Barbosa, 53 anos, mora no bairro Itaberaba e sentiu na pele essa preocupação. Ela precisou deixar sua casa em chuvas anteriores, pois a água batia quase no joelho. Os traumas deixados pelas fortes chuvas estão além dos danos materiais que sofreu.

“Eu sinto preocupação nesses dias que tá mais bonito para chover. Uma preocupação de chover um pouco mais. Dá uns pinguinhos e eu já fico com medo, meio nervosa. Durante o dia a gente não tem medo, o negócio é à noite para dormir, né? A gente não sabe. Aí só quem sabe é Deus.”

O que acontece com Dona Harleide sempre que chove forte em Juazeiro, não está somente associado às mudanças climáticas. O racismo ambiental, como explica a jornalista e pesquisadora Victória Santana, contribui para que essas mudanças afetem principalmente a vida da população preta e pobre que vive na periferia da cidade. "dentro de uma construção social, tem um grupo que vai sofrer as piores consequências que são frutos de racismo estrutural, de uma política de morte proposital que define quem vive e quem morre. Essas pessoas, geralmente, são as pessoas negras."

A jornalista explica que é necessário entender que as pessoas que vivem nesses territórios vulnerabilizados e sofrem com essas enchentes não estão lá por escolha, mas por sobrevivência.

 "O racismo ambiental é entendido justamente, como a falta de políticas públicas para esses territórios onde a maioria é negra e pobre. Então, quando a gente fala de racismo ambiental, a gente precisa olhar para as estruturas de exclusão criadas para matar pretos, pobres e indígenas", conclui.

Os desafios da sustentabilidade-As mudanças climáticas na região são resultado de um conjunto de fatores que se acumulam, silenciosos e contínuos. A cidade, que recebeu a promessa do desenvolvimento, hoje sente no corpo os efeitos de uma urbanização que desprezou o equilíbrio ambiental. O avanço do asfalto e do concreto é um dos elementos centrais nesse cenário. Durante anos, o revestimento das ruas foi encarado como sinal de progresso: quanto mais vias asfaltadas, mais valorizado seria o bairro. Mas por baixo da superfície lisa, há um solo sufocado, incapaz de absorver água ou amenizar o calor.

“Acredita-se que essas cidades têm um potencial maior de investimento porque elas têm mais asfalto. Nós temos hoje outras técnicas de você fazer as vias públicas de maneira mais sustentável, que mantenha a permeabilização do solo para que a gente tenha infiltração.” - afirma o ambientalista Victor Flores

O clima que aquece os preços-Além dos impactos visíveis gerados pelo aquecimento global, existem milhares de consequências que não são vistas e entendidas como resultado de mudanças climáticas. Há quem pense que o aquecimento global é algo distante, que acontece nas calotas polares ou nas manchetes dos jornais, mas ele também se esconde no preço do quilo da manga e na qualidade da uva. Ou você, leitor, nunca foi ao mercado e reclamou do preço alto das frutas que são produzidas aqui mesmo, na região?

As mudanças climáticas afetam também a produção agrícola do Vale do São Francisco. Um paradoxo. Chove demais em um único dia, falta água quando precisa. Uvas incham demais e perdem o ponto por excesso de umidade. Mangas deixam de florescer porque o calor intenso fez a planta desistir antes da hora. Menos fruta colhida significa preços mais altos. 

“Os fatores climáticos afetam diretamente a produção e afetam também o consumidor. Quando a produção aumenta, o preço do produto tende a cair. Mas se ela diminui, vamos ter aumento no preço do mercado.” A explicação é da economista e professora da Facape, Deise Nascimento, que acompanha os impactos da instabilidade climática na economia agrícola do Vale do São Francisco.

Segundo a economista, o calor extremo tem afetado a produtividade nas lavouras. “As plantas, de um modo geral, são muito sensíveis a essas temperaturas extremas e com a exposição ao calor excessivo, vai apresentar uma queda do rendimento e a redução da qualidade”, explica

Se por um lado o calor excessivo compromete o crescimento das plantas, por outro, o frio e as chuvas intensas também trazem prejuízos. “Isso [as chuvas] traz áreas alagadas, perde-se a produção e há uma redução da produtividade”, alerta a economista. Em regiões onde o solo não consegue absorver rapidamente o volume de água, as plantações simplesmente apodrecem. O clima, que antes era um aliado do calendário agrícola, tem se tornado um fator perigoso para a economia rural.
No fim da cadeia, quem sente os efeitos da crise climática é o consumidor. “A escassez de frutas nas lavouras e o aumento dos custos de produção se traduzem em preços mais altos nas prateleiras”, afirma a economista. Assim, o clima instável altera o campo e a rotina de quem compra e se alimenta.

O corpo sente: riscos do aquecimento à saúde física-O calor excessivo provocado pelas mudanças climáticas afeta também a saúde física. O médico cardiologista, Anderson Armstrong, explica que durante longos períodos de calor perdemos uma quantidade maior de água no corpo e consequentemente há uma desidratação. Segundo Armstrong, a prática de exercícios físicos durante esses períodos potencializa a deficiência de água no corpo. “É importante que a pessoa, durante o exercício físico, beba água regularmente e evitar a prática durante os períodos mais quentes do dia, fazer exercício até no máximo 9h ou depois das 17 horas”

É preciso ficar sempre alerta aos sinais que podem indicar que o corpo está precisando repor água. Um deles é a cor da urina, que se estiver escura e concentrada, é sinal de que o rim está precisando trabalhar mais para evitar a perda de líquido. “Se ela [urina] está transparente, se a pessoa está indo regularmente ao banheiro, isso é um excelente sinal de hidratação”, explica Armstrong

Enfrentar essa batalha contra o calor durante o dia já não é tarefa fácil, e há noites em que a luta simplesmente se recusa a terminar. No momento em que o corpo deveria encontrar alívio, o calor rouba do sono sua função restauradora. “O normal e saudável é que a temperatura do corpo caia um pouco durante o sono, pelo menos um grau”, explica o cardiologista. “Mas com o calor excessivo, há uma dificuldade em regular isso, o que compromete a qualidade do sono. A pessoa acorda cansada e fica com sonolência ao longo do dia.”

Ecoansiedade e o custo mental da crise climática-Um acontecimento como esse certamente vai além dos impactos na saúde física citados — ele também atinge, de forma silenciosa, a saúde mental da população. A chamada ecoansiedade, ou ansiedade climática, é um termo relativamente novo se comparado ao tempo em que ouvimos falar sobre mudanças no clima.
O conceito foi descrito pela primeira vez em 2017, pela Associação Americana de Psicologia (APA). Por ser um termo novo, a ecoansiedade ainda é pouco discutida — talvez por estar associada a algo que, para muitos, ainda parece distante ou abstrato. Mas a verdade é que ela está mais presente do que se imagina.

Segundo Alexandre Raich, psicólogo que estuda os impactos mentais das mudanças climáticas, a ecoansiedade tem como gatilho “a condição climática ambiental, as catástrofes ambientais e também as informações relacionadas à condição global do planeta”. O que está na base dessa ansiedade, ele explica, é o medo.

“A gente costuma considerar, de uma maneira genérica e abrangente, o medo como uma emoção mais negativa, por conta de todas as consequências indesejáveis do medo em desequilíbrio. Mas todas as emoções primárias cumprem uma função na nossa vida biológica e social, e o medo é uma emoção que nos convoca ao exercício da prudência.” - explica o psicólogo Alexandre Raich.
A ecoansiedade não é, necessariamente, uma reação consciente. Raich prefere pensar nela como um sintoma compreensível. “Se a gente for considerar uma visão científica da crise ambiental global, temos um cenário que naturalmente provoca medo. E esse medo, quando é utilizado de forma produtiva, pode ser canalizado para atitudes que promovam mais segurança”, enfatiza o psicólogo
Mas o mesmo medo que pode motivar ações coletivas e transformadoras também pode paralisar. Em excesso, ele se converte numa ansiedade patológica, que tende ao isolamento, à imobilidade ou a respostas primitivas como fuga e colapso. 

Crianças e adolescentes, lembra o psicólogo, são especialmente vulneráveis a essa forma de sofrimento. Em parte por ainda estarem em desenvolvimento e sob a influência direta dos adultos — pais, mães, cuidadores — com quem convivem. Em parte, também, porque são elas que vão herdar o planeta. “Quando projetamos um futuro catastrófico, esse impacto não é só imediato. Ele se estende no tempo, com efeitos a médio e longo prazo.”

Embora a ecoansiedade ainda não esteja reconhecida oficialmente como uma categoria clínica — nem mesmo na última reformulação da Classificação Internacional de Doenças (CID-11) —, ela tem ganhado espaço nos discursos de movimentos ambientais e nas redes sociais. É, segundo Raich, um conceito com “potência política e ética”, que traz uma reflexão sobre a crise ambiental a partir de uma outra perspectiva.

Levi Varjão e Yanne Nascimento. Estudantes do 8° período do curso de jornalismo em Multimeios 

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