ESPAÇO DO LEITOR: ELISEU, UM JUAZEIRENSE ALÉM DO SEU TEMPO.

30 de Jun / 2025 às 23h00 | Espaço do Leitor

Em 2028 já serão 150 anos da elevação de Juazeiro a categoria de cidade e nessas quase 15 décadas a história de Juazeiro foi escrita por inúmeros juazeirenses nativos ou não e que precisam ser lembrados e relembrados para não parecer que somos apenas resultado de um presente recente que dispensa comentários. 

Pelo Instagram fui despertado nesse 29 de junho por um texto singelo de Cláudia Morikawa, filha primogênita de Eliseu, homenageando o seu saudoso pai na data que completam 32 anos do seu precoce e repentino falecimento.

Mesmo decorrido mais de três décadas as boas lembranças da curta convivência com esse juazeirense diferenciado se mantém vivas e a vontade de enaltecer a sua contribuição ao desenvolvimento de Juazeiro revela-se permanentemente como um desejo fraterno e sincero de homenagear a sua memória. 

Sua passagem terrena foi muito breve e os seus 41 anos de existência foram suficientes para ele mostrar-se que era além do seu tempo. 

A eleição do jovem Engenheiro Civil Jorge Khoury a Prefeito em 1982 o levou a e a ser nomeado para ocupar a Chefia de Gabinete e depois Secretário de Desenvolvimento Econômico o que foram  suficientes para lhe dar régua e compasso que contribuísse8 para o novo governo  construir pautas importantes e tambem poder cumprir agendas técnicas e institucionais além das fronteiras e da imaginação dos seus colegas de governo, a maioria obtusos provincianos. O seu arrojo e suas ideias vanguardistas o faziam ser rotulado de "louco visionário" e o apoio incondicional do "chefe"  era sempre o combustível que precisava para "voar" além da realidade local.

Num tempo onde o mundo ainda era analógico, comunicação por telex e fax, jornal da capital chegando no turno vespertino, longas viagens de ônibus para se chegar a Salvador, nada disso foi  impedimento para os "voos" de Eliseu que a noite saia do velho terminal rodoviário da cidade e no dia seguinte já desembarcava no RJ ou SP para viabilizar encontros do já líder municipalista JK, presidente da UPB e também da Confederação Nacional dos Prefeitos com Leonel Brizola ou Franco Montoro, governadores e ícones da esquerda na redemocratização que o Brasil respirava no pós 64. Esses são alguns dos exemplos da sua atuação que faziam  Juazeiro e JK serem enxergados  nacionalmente a partir das barrancas do Velho Chico.

A sua ousadia convenceu Jorge Khoury a levar Juazeiro a participar em 1984 da tradicional FESTA DA UVA em Caxias do Sul no RS e se apresentar como CAPITAL NACIONAL DA IRRIGAÇÃO sendo um município do semiárido que produzia cebola, melão e também uvas de excelente qualidade. Essa iniciativa fez nascer em 1985 a FESTA NACIONAL DO MELÃO e em 1986 a FEIRA NACIONAL DA AGRICULTURA IRRIGADA - FENAGRI.

Esse evento transportou o nome de Juazeiro e região para além das fronteiras do Brasil e tornou-se na década de 90 uma referência no calendário de feiras internacionais, sendo a maior do segmento na América Latina. Infelizmente a falta de competência e sensibilidade jogaram esse importante projeto de promoção, comercialização e difusão de tecnologia das nossas frutas irrigadas nas prateleiras do atraso e do retrocesso.

A década de 80 marcou a transição da matriz econômica da região que tinha no setor terciário o seu grande pilar para a agricultura irrigada. O Economista Eliseu Santos enxergava isso com muita clareza e a fruticultura irrigada era a sua bandeira na atuação como executivo de governo. A formação da colônia japonesa nos perímetros irrigados contaram com seu importante apoio e junto com os japoneses veio a implantação da COTIA, uma cooperativa modelo e de atuação reconhecida no Sul e Sudeste do país. A ampliação da rede bancária naquela época foi uma demonstração da imagem desenvolvimentista que o município desfrutava perante a Bahia e ao Brasil. Num trabalho articulado do prefeito com ele  nesse período abriram em Juazeiro agências os Bancos ITAÚ e BAMERINDUS e também o Banco AMÉRICA DO SUL que buscava atender prioritariamente as iniciativas dos nipons e consolidar a permanência oriental no semiárido baiano.

Talvez poucos ainda lembrem, apesar de Jorge Khoury governar por seis anos o saudoso Eliseu apenas contribuiu na primeira metade do governo. Incompreendido por uma minoria e demonstrando desapego a cargos, mesmo mantendo inabalada a amizade pessoal com JK, saiu da administração municipal e foi assessorar o então recém-eleito Deputado Estadual Pedro Alcântara na ALBA . O seu trabalho ajudou JK a consolidar uma imagem positiva no  municipalismo brasileiro, porém seu governo perdeu com a sua saída  um expoente que era uma verdadeira "fábrica" de ideias inovadoras.

Eliseu era um cidadão do mundo, irrequieto e ansioso ele tinha muita pressa e o seu repentino desaparecimento  nos fez compreender o porquê de viver cada dia com tanta intensidade. 

Dormir em Juazeiro e acordar em Madrid no apartamento do primo famoso, zagueiro da Seleção Brasileira e do Atlético de Madrid, o conterrâneo Luiz Pereira era muito natural. Vale ressaltar que esse seu "networking" na companhia do primo lhe fez idealizar e realizar em Juazeiro, no Cine São Francisco, um Simpósio Nacional de Futebol com as presenças ilustres  do então presidente do Flamengo Márcio Braga e de outras personalidades famosas do meio esportivo.

Foi também pelas mãos de Eliseu que em janeiro de 1992 a famosa Seleção Brasileira de Master com Luizão Pereira, Rivelino, Edu & Cia pisassem o gramado do Adauto Moraes para um jogo antológico contra a Seleção Juazeirense de Master. O então prefeito Joseph Bandeira entrou em campo e anulou a expulsão pelo juiz da partida  do astro Luiz Pereira, uma decisão inédita no futebol mundial.

No início da década de 90, a convite do petrolinense e então Governador de Roraima, Otomar Pinto, migrou para aquele estado que deixava de ser território e mais uma vez exercitando seu lado visionário levou um grupo de jovens juazeirenses dando-lhes a oportunidade de emprego e desenvolvimento naquela região longínqua do país. 

Voltou para a terra natal em 1991 para ajudar o governo do Prefeito Joseph Bandeira a realizar a FENAGRI  e com o apoio do já Deputado Federal Jorge Khoury pavimentou o patrocínio Governo do Estado o que assegurou o sucesso do evento. No final de 1992 se estabeleceu em definitivo na região, foi morar em Petrolina e iniciar um negócio privado de exportação de uvas para os mercados do sul do país e vinha diariamente a Juazeiro visitar os amigos e conversar. 

Aliás, conversar e projetar o futuro de Juazeiro era o que Eliseu mais gostava. Em junho de 1993, estava eu Presidente da CDL local e preparando aquele que seria o maior Congresso Lojista da Bahia e que se iniciaria no dia 30 de junho daquele ano na nossa cidade. Na noite do dia 28 fui ao Restaurante da Cidade jantar e me aconselhar com Eliseu sobre algumas pautas do evento e já nos despedimos nas primeiras horas do dia 29, foi nosso último aperto de mãos. No final da tarde desse fatídico dia, ele generosamente mandou entregar as uvas que ajudaram a enfeitar a mesa do coquetel de abertura do Congresso e antes do anoitecer, o destino de forma fulminante o tirou do nosso convívio terreno.

A sua existência breve foi recheada de grandes conquistas de interesse coletivo. As riquezas que deixou para Bernadete, três filhas menores, uma delas recém-nascida, seus familiares e seus amigos foram seus exemplos e sua luta para fazer o bem comum florescer por onde nasceu, viveu e passeou. 

Sua memória será sempre lembrada e enaltecida  e Juazeiro do século 21 muito lhe deve, descanse em paz amigo-irmão ELISEU SANTOS.

Por Herbert de Moraes Caffé

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