
Raul Seixas faria 80 anos neste sábado, dia 28. E, mesmo que o cantor tenha morrido em 1989, as músicas dele ainda continuam fazendo sucesso.
Em Juazeiro, Bahia, Jonivaldo Fernandes de Souza, conhecido por professor Vado, graduado em Geografia e Filosofia é um pesquisador que mantém a vida e obra, memória e história musical de Raul Seixas vivas.
Professor Vado, em contato com a REDEGN faz a reflexão que "Raul Seixas alardeava "nasceu há dez mil anos no verso-título de um sucesso de 1976" e isto soa natural porque o artista baiano personifica há décadas um mito no imaginário roqueiro nacional. Um mito lendário que parece dissociado da contagem do tempo.
Raul Seixas idolatrava tanto o seminal roqueiro norte-americano Elvis Presley quanto Luiz Gonzaga (1912 – 1989), rei do baião que curiosamente morreu no mesmo mês de agosto de 1989 em que Raul saiu de cena, aos breves 44 anos, para entrar na galeria dos mitos da música brasileira.
Confira reportagem REDEGN-Professor Juazeirense mantém viva memória, vida e obra de Raul Seixas
O Raulseixismo, a devoção ao cantor e compositor Raul Seixas reúne grupos de fãs do país inteiro. Os raulseixistas são uma tribo formada por muitas outras, que se unem pelas letras das canções e pela admiração e inspiração na trajetória de vida e nas ideias defendidas pelo artista nascido em Salvador, em 28 de junho de 1945.
"Raul faria 80 anos neste sábado, mas quase 36 anos após ele migrar para o plano astral, seguindo a lógica de sua personalidade poética e mística, os fãs se renovam e mantêm vivo o legado de um dos pais do rock nacional", diz professor Vado.
“O cantor e compositor Raul Seixas tem um público grande e heterogêneo, do qual se destacam os raulseixistas. Estes não apenas admiram um cantor de rock, mas transformam suas vidas, estabelecem relações com seus pares, distanciam-se de outros e criam sociabilidades próprias, articulando-se no tecido social de uma forma específica”, diz trecho do artigo de Juliana Abonízio, publicado na edição número 30 do periódico Estudos de Sociologia, da Faculdade de Ciências e Letras da Universidade Estadual de São Paulo (Fclar/Unesp).
O artigo analisou 300 cartas dentre as milhares enviadas para o fã-clube Raul Rock Club, agremiação da qual o próprio cantor era participante ativo, segundo reportagem publicada em A TARDE, em 7 de abril de 1991, sobre fã-clubismo na Bahia.
No caso do Raul Rock Club citado na reportagem, a origem é São Paulo, mas a relação com a Bahia se baseava, além da origem do próprio artista, na conexão entre os muitos grupos de fãs dentro e fora do estado onde Raul nasceu. “Raul Seixas talvez reúna o maior número de fãs clubes no país”, afirma a reportagem.
No acervo histórico de A TARDE, preservado no Centro de Documentação (Cedoc) do jornal, a relação de carinho e saudade dos fãs de Raul está presente nas fotografias e nas coberturas jornalísticas que mostram os encontros dos admiradores e as homenagens ao cantor após a sua morte, em 21 de agosto de 1989.
“Jaquetas pretas, algumas de couro, blusões coloridos por baixo, com o retrato do ídolo, botas, tatuagens e uma idéía fixa na cabeça: reverenciar o pai do rock brasileiro e atestar que o autor do verso "eu nasci, há 10 mil anos atrás", tem, no mínimo, mais 10 mil para ser cultuado”, diz trecho de uma reportagem de 22 de agosto de 1995, sobre a visita anual que fãs do cantor fazem ao seu túmulo no cemitério Jardim da Saudade. O mesmo texto de 30 anos atrás revela que naquele ano, a Bahia contava com nada menos que 55 fãs-clubes dedicados ao legado do Maluco Beleza.
Na quase obrigatória peregrinação anual ao Jardim da Saudade, sempre tem alguém, ou vários alguéns, com um violão à tiracolo para tocar Raul por horas. Os raulseixistas e outras tribos improvisam almoço e jantar no cemitério parque, em uma versão contemporânea e mais solar da Sociedade Epicureia, grupo de estudantes que eram também escritores e poetas e se encontravam em cemitérios, em 1845, para farras literárias. A diferença é que a sociedade alternativa formada pelos fãs de Raul não tem aquele elemento gótico e sinistro oitocentista.
“A obra de Raul é o maior símbolo de transgressão que este país já conheceu, por isso, sua tribo pretende perpetuá-la através das gerações”, disse ao A TARDE uma devota que esteve na vigília de 1995.
Para Rafa Luz, a música de Raul é mágica e dialoga com pessoas de todas as idades. “As letras são muito fortes e objetivas, aquilo que você queria ouvir, que você queria fazer”, afirma, completando que o cantor merecia um museu ou centro de cultura para preservar seu legado em Salvador, sua cidade natal. “Existem alguns espaços alternativos, mas que são pessoas que são fãs e que por acreditarem tanto na obra de Raul e não quererem que essa obra se apague, fazem esse tipo de movimento. Mas, eu acho que poderia ter um incentivo maior aqui na Bahia para que a obra desse cara continue se perpetuando”, opina.
O desejo de Rafa pode acontecer mais rápido do que ele pensa. Ao menos, a edição da Revista Muito do último domingo (22) sobre Raul Seixas trouxe a informação de que a prefeitura de Salvador estaria em contato com a família do cantor para criar um memorial em sua homenagem.
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