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Versos Caudalosos

04 de Oct / 2011 às 10h40 | Variadas

Paulo Carvalho (SPO)

E antes que caia na enxurrada impiedosa das mutações humanas
Seguirei o seu destino nas longínquas cidades ribeirinhas
Mesmo que suas águas sintam a febre de meus versos queimando
Em seu leito, como alcova de amantes em segredo, seguirei,
O seu destino colado com o meu, em barcas noturnas
Na imensidão doce de seus cabelos...

Lisos e belos como lendas meninas no leito, dormindo inocentes
No altar do rio-mar, crescendo em raios de luar, noites 
Embriagadas de estrelas, e um pescador de sonhos joga sua rede
Sobre o lençol do clarão, e como presa sereia e serpente,
Fantasmas de um rio misterioso, sentado imponente numa margem qualquer,
Contando histórias, risos e lágrimas, num circo de vento, 
E lento em seu caminho, segue sem pressa, sem ninguém vê...

Onde passeia, oh, Velho Chico, também quero navegar meus passos,
Como um rastro insípido, incolor, mas manchado de dor, a sua dor,
Que também é minha, solidão corrente, caudalosa, sem precipitação,
Noivas que se deleitam, embebidas de paixão, véu de água doce
Na incerta imensidão, cais solitário, rio só, não te perturbes essa noite,
Mesmo que caia nas garras de teus algozes, não serás ferido, 

Pois caíste primeiro nos olhos do horizonte, e lá também estão,
As palmas de nossas mãos se encontrando, pois nossos caminhos são os mesmos,
E nossa viagem continua, mesmo que a noite esteja nua, a barca velha,
E a rede sem peixe, as lendas nos acompanham como bússola!

E o encanto da sereia apaixona o velho caminheiro de água doce,
Que não se cansa de ouvir o canto enfeitiçado da beldade,
A linda menina lenda, a estrela noturna a navegar em meus lençóis,
Como virgem embebida de paixão e inocência, dormindo sob o leito
Do Rio São Francisco, iluminado por uma noite que parece eterna...

Que parece afugentar a aurora teimosa brindando o rio com a manhã,
Suculenta, quente e cheia de prazer, como o Sol estalando o cais,
Roubando confissões de pescadores e lavadeiras como num divã. 

E o analista nego d’água sorrindo feito moleque se esconde
Da proa carrancuda de uma barca desgarrada, longe da margem, longe.

Mas a noite insiste no desenrolar de seu véu de estrelas,
Seguindo o rio num itinerário incerto, banhando matas, areias e concretos,
O Velho Chico segue quase vivo, quase morto, quase nada, quase tudo,
E a noite termina derramando gotas de luar sobre montanhas rochosas. 

E o rio segue sua sina entre cânion, veredas e paisagens urbanas, 
Acenando ao longe outras águas represadas, lagos e barragens, e segue,
Correndo lento e perseguido pela ganância, pelo poder; mas meu velho,
Seus passos são largos e sua força absoluta, cada vez que avança, cresce,
Sua sina é navegar sobre a intolerância humana. 

Velas que se desprendem sobre o rio-mar,
E índios em círculos festejam “Opará”, 
E ainda a ponte como veia de concreto pulsando
E as linhas das mãos do poeta sangrando 
Como veredas caudalosas que se escondem
Do bicho-homem que não sabe navegar. 

Rio São Francisco, meus versos simples, submissos e de gratidão,
São gotas de lágrimas diante da sua imensidão. 
Sua água doce misturada ao sal de minha lágrima
É a poesia derramada e circense, igual à cena do pierrô apaixonado: 
- O riso entre lágrimas - eis o seu retrato, eternamente! 

* jornalista, poeta e escritor

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