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Evento Científico mais importante do país discute o Bioma Cerrado

19 de Jul / 2011 às 09h40 | Variadas

Estivemos entre 10 a 15 de Julho em Goiânia, no campus da Universidade Federal de Goiás –UFG, participando da 63ª  Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência-SBPC,   com o tema: Cerrado - Água, Alimento e Energia. Trata-se do mais importante fórum científico e de política tecnológica do Brasil. A SBPC tem oferecido ao Brasil notável contribuição ao pensamento e desenvolvimento das Ciências.

Estive na ocasião apresentando trabalho científico com a cultura da atemóia ( resultado de alguns anos de estudos) na sessão de pôsteres junto com o colega Roberto Castro pesquisador do IPA-PE. Contudo o aspecto que desejo assinalar, é  que, o que está  ocorrendo com o  bioma Caatinga em matéria de agressão, vem também ocorrendo com o bioma Cerrado, só para se ter uma idéia o Cerrado é um dos ‘hotspots’ para a conservação da biodiversidade mundial. Nos últimos 35 anos mais da metade dos seus 2 milhões de km2 originais foram cultivados com pastagens plantadas e culturas anuais.

As taxas de desmatamento no Cerrado têm sido historicamente superiores às da floresta Amazônica e o esforço de conservação do bioma é muito inferior ao da Amazônia: apenas 2,2% da área do Cerrado se encontra legalmente protegida. A crescente agressão, decorrente do modo insustentável de produção agrícola, pode ser claramente aquilatada quando se trafega entre Luís Eduardo Magalhães e o distrito de Rosário ainda em Correntina município baiano, e constata-se como a monocultura tem destruído a estrutura dos solos tornando-os cada vez mais suscetíveis à erosão e aos processos de depauperamento de suas características físicas, químicas e biológicas, cortinas de poeiras podem ser vistas, comprovando o manejo inadequado dos solos da região. Soma-se a isto, à utilização maciça de agrotóxicos em áreas imensas cultivadas com algodão, milho e soja. Para se ter idéia de grandeza, viajamos mais de 200 km com os campos cultivados com algodão, soja e milho.

Não resta dúvidas sobre a grandeza e a importância que a agricultura brasileira atingiu, e mesmo à atividade desenvolvida na região que mencionei. É certo que os agricultores trabalham muito, mas o modelo convencional agrega externalidades negativas que serão colhidas num futuro muito próximo. Mas ao mesmo tempo em que estamos obtendo ganhos em produtividade física comercial, temos como desafio principal, o de compatibilizar à produção de alimentos e de produtos para exportação com sustentabilidade ambiental, ou seja, com a conservação dos recursos naturais: solo-água-ar-planta-animais.

Não há como postergar esta importante decisão, sob pena de o modelo em curso promover a produção com um custo ambiental sem precedentes para as futuras gerações que herdarão as conseqüências do que estamos fazendo. É possível e já dispomos de tecnologias de processos, suficientes para produzir alimentos sem agrotóxicos, contudo a lógica da complacência com seu uso não pode continuar perdurando. Fico a imaginar como o homem pode se permitir destruir sem critério o ambiente que levou bilhões de anos para ser construído pela natureza. O cerrado por exemplo, concentra um terço da biodiversidade nacional e 5% da flora e da fauna mundiais conhecidas.

Corpos hídricos inteiros estão ameaçados ou foram extintos para dar lugar a uma agricultura insustentável, predatória em muitos aspectos. Como cidadão e especialista em agricultura sustentável, assevero que a economia é um subsistema do ecossistema global, além deste fato insofismável, destaco que a economia é para servir as pessoas e não as pessoas servirem a economia- o desenvolvimento por sua vez diz respeito a gente e não a coisas (PIB-produto interno bruto ), crescimento econômico não é a mesma coisa que desenvolvimento, muito menos, o desenvolvimento sustentável. A continuar assim, estaremos fadados ao colapso com sério comprometimento dos fatores naturais que viabilizam a produção econômica - a natureza não é um compartimento industrial. Todas as tentativas de dominar a natureza resultaram em fragorosos fracassos para o homem.

Os casos se sucedem sem que o homem extraia exemplos e modifique sua relação de superioridade para com a natureza. Portanto, fóruns como esse, que realiza intensos debates, discutindo diversas questões como as mudanças climáticas, cujas conclusões muitas vezes se constituem em recomendações aos governos, são indispensáveis para a construção de políticas públicas em Ciência e Tecnologia que sejam sustentáveis. Trata-se do fórum científico mais democrático da comunidade de cientistas brasileiros, por esta razão estar lá e apresentar trabalho é uma oportunidade que consideramos um dever de qualquer pesquisador. Concluindo, creio no homem e em sua capacidade de reencontrar-se com sua origem, mas precisamos adotar medidas imediatas para garantir a sustentabilidade dos sistemas de produção agrícolas e industriais. 

Jairton Fraga Araujo

Prof.º Adjunto UNEB/DTCS

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