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Artigo - Votem no João

26 de Jan / 2022 às 23h00 | Espaço do Leitor

Algumas pessoas dizem que a política é uma arte, outras dizem que é uma artimanha. Sem entrar no debate desses conceitos, vou contar uma artimanha política que de tão espetacular é difícil de escrever e mais ainda, de acreditar.  

O fato aconteceu em Roraima, na campanha de 1990, quando o candidato ao governo do Estado, Ottomar de Sousa Pinto quis eleger João Batista a deputado federal. 

João Batista estava recente no estado de Roraima e, portanto, era desconhecido do povo. E mesmo que este candidato tivesse distribuído ouro com os eleitores (como outro candidato já tinham feito isso em campanha anterior) não teria a mínima chance de se eleger. Sem saída, Ottomar teve uma ideia que contou com a ajuda do locutor oficial dos comícios e com a cumplicidade de um outro João (de sobrenome Luiz Hartz), um gaúcho muito querido pela população, que não era candidato a nada, mas, que discursava muito bem. 

João Batista (o candidato oficial) ficou recolhido no hotel durante toda a campanha, cumprindo as determinações de seu padrinho político. Ottomar, por sua vez, seguia em plena campanha para o governo do Estado fazendo comícios em todas as partes, juntamente com outros candidatos a deputado federal e estadual de seu partido.  

Durante todos os comícios o locutor pedia votos para Ottomar e acrescentava: Se você vota em Ottomar também votará em João para deputado federal, porque sem a ajuda de João na câmara federal, Ottomar não poderá trabalhar por Roraima. Vote em João para deputado federal. O número dele é tal.  

Depois que alguns candidatos discursavam e antes que o comício terminasse, o locutor, anunciava com muita empolgação: Agora vocês irão ouvir as palavras do nosso João. E dessa forma, João Luiz Hartz ficava aparecia ao lado de Ottomar e cumpria o script na artimanha. Falava em linhas gerais, mas, não pedia voto pra ele (até porque não era o candidato) e concluía dizendo que o povo deveria votar em Ottomar para o governo do Estado. Quando João Luiz Hartz entregava o microfone de volta para o locutor, esse repetia: Se você vota em Ottomar também votará em João para deputado federal, porque sem a ajuda de João na câmara federal, Ottomar não poderá trabalhar por Roraima. Vote em João para deputado federal. O número dele é tal. Por fim, o locutor anunciava Ottomar de Souza Pinto que falava de suas propostas, agradecia aos presentes e encerrava os comícios.   

Resultado: O povo ouviu os discursos de João Luiz Hartz, mas elegeu João Batista, com 1.395 votos, o qual ficou em oitavo e último lugar. João Batista foi eleito deputado federal sem pedir nenhum voto e sem subir em palanques.  

Ottomar (o mentor desta artimanha), que tinha começado a campanha com apenas 7% das intenções de votos, se elegeu governador do estado de Roraima, vencendo o ex-governador e poderoso Romero Jucá nos dois turnos, pelo placar de: 27.143 a 22.394 votos - 32.506 a 28.993 votos, respectivamente. 

E pra quem pensa em fazer artimanhas nestas eleições de 2022, lembre-se de que: o caso de João foi um fato isolado e atípico. O que deu certo em um lugar provavelmente não dará num outro. Os riscos e os benefícios devem ser bem avaliados. Existe um Ministério Público e uma Justiça Eleitoral atentos e atuantes, muito diferente de antigamente.  

Gilberto Maciel dos Santos, juazeirense, 66 anos, escritor. 

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