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Artigo – A linguagem do troca-troca, voltou!

01 de Aug / 2021 às 23h00 | Espaço do Leitor

Quando alguém se propõe a exaltar o conceito diferenciado de um governo em detrimento de outros anteriores, subentende-se que o faz por uma visão de princípios e coerência em torno de razões de integridade, e não somente por um item específico, a exemplo do que tanto se insinua sobre o governo atual de que não há mais a prática da corrupção que tanto se consagrou nos últimos governos. 

A propósito, o Ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, deixou o governo, recentemente, face a processo investigatório por suspeita de envolvimento em negócios escusos na exportação de madeira. O fato já planta a dúvida quanto à absoluta imunidade do governo no que tange a qualquer indício de corrupção. Vamos acreditar que pare por aí. Acreditar e imaginar é uma coisa, não acontecer, é outra bem diferente.

Outro ponto relevante é quanto ao abrupto rompimento em pontos fundamentais do seu projeto de governo, como, por exemplo, a pregação de redução da gigantesca estrutura Administrativa e Ministerial, e a todo momento um Ministério extinto é recriado. Ora, não cabe qualquer questionamento quanto ao inegável Poder Institucional do Presidente em voltar atrás e decidir recompor um Ministério, desde que o faça por estritos motivos tecnicamente justificáveis ou por eventual necessidade de melhor funcionamento da máquina administrativa. O caso do Ministério recém-criado, contudo, está longe de quaisquer adequações técnicas, e sim por interesses unicamente políticos.

Todavia, assim como já ocorreu em outras etapas desse curto período de governo – PEC da Previdência -, novamente a necessidade de fortalecimento da sua base parlamentar pôs em evidência o jogo político praticado pela famosa coligação do Centrão, cuja base se fundamenta na linguagem da TROCA, ou seja: eu lhe dou, você me dá, e assim acontece o “toma-lá-dá-cá”. Procura-se o inventor de tão sórdida maneira de legislar em favor do próprio bolso, sem olhar para trás e lembrar dos eleitores, de quem receberam o voto de confiança! Isso tem nome? Tem sim: traição, safadeza e enganação.

Mas, seria ingênuo acreditar na integridade dos discursos de protestos incisivos de Deputados e Senadores contra as relações com o Centrão, uma vez que em tempos não muito distantes aprovaram a PEC da reeleição de Fernando Henrique Cardoso, são os mesmos que atuaram no Mensalão de Lula e que fizeram fila no Hotel Golden Tulip, em Brasília-DF, quando Lula coordenava os votos parlamentares para evitar o impeachment da Dilma! E o que estava por trás em todas essas votações? Bilhões de reais em Emendas Parlamentares...! Ou seja, o suor dos nossos impostos pagos, sendo manipulados sem escrúpulo algum!

Agora, a fim de viabilizar as novas estratégias políticas, a Medida Provisória 1.058/2021 promoveu uma minirreforma: a) A volta do Ministério do Trabalho, e o Onyx Lorenzoni como seu Ministro; b) A nomeação do Senador Ciro Nogueira para Chefe da Casa Civil da Presidência; c) E a acomodação do General Luiz Eduardo Ramos – ex-Casa Civil -, que foi para a Secretaria-Geral da Presidência. Vale ressaltar que o Senador Ciro é Presidente Nacional do PP e uma das lideranças do Centrão. 

Entendo que todos reconhecem o quanto é difícil e complicado encarar as Reformas que se fazem necessárias, não somente de caráter previdenciário, mas de política tributária e fiscal. No entanto há uma reforma que se faz mais impositiva e prioritária, e que a partir dela as demais se viabilizarão: a mudança de caráter! Enquanto essa não se tornar uma realidade, assistiremos nesse e em futuros governos, periodicamente, à prática da operação de troca, como forma da linguagem de comunicação institucional. Infelizmente e vergonhosamente!
                                                                                   
Autor: Adm. Agenor Santos, Pós-Graduação Lato Sensu em Controle, Monitoramento e Avaliação no Setor Público – Salvador-BA.

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