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Artigo – O luar do sertão (II)

14 de Feb / 2021 às 23h00 | Espaço do Leitor

Em razão da Pandemia, os nossos movimentos se tornaram condicionados a espaços restritos e hábitos protocolizados, o que nos leva a viajar no tempo, revivendo as saudades de passeios nacionais e internacionais, os afáveis encontros com os amigos, visitar cidades etc. Com mais tempo para pensar, obviamente que as reflexões nos despertam para boas ou, às vezes, más recordações.

Assim é que, num momento de lembranças do sempre querido rincão de Uauá, a “Capital do Bode”, onde, durante 10 anos, tive o prazer de conviver profissionalmente, fui induzido pela memória a recordar e reeditar a crônica sob o título acima, que completará 10 anos de publicada, ou exatamente em 12 de outubro de 2011, inspirada num instante de romantismo, e que outro não poderia ser o título: O LUAR DO SERTÃO!

Ao lado de tantos encantamentos que o sertão oferece, o texto deu título e realce à sua beleza mais emblemática, o LUAR. Mas, não poderia esquecer o lado cultural da terra, e assim dediquei um parágrafo à ímpar e marcante personalidade do ilustre amigo Coronel Jerônimo Rodrigues Ribeiro, de saudosa memória, porque falecido em 29 de janeiro de 2015, há 6 anos! Eis a crônica de 10 anos atrás:

“Embora cearense no sobrenome, foi um maranhense de São Luís quem exaltou com singela e rara exuberância as inolvidáveis belezas do Luar do Sertão. Quem, em algum momento da vida, já não cantou com enlevo e romantismo os versos de Catulo da Paixão Cearense, verdadeiro hino de louvação ao sertão? “Não há, ó gente não há, luar como este do sertão”, traz o estigma da paixão profunda pelos encantos das terras semiáridas do sertão, que não têm as águas verdes do mar a banhá-las, mas tem a noite iluminada pela riqueza celestial dos astros.

Quando escura, a noite é o apanágio dos fracos e dos possuídos por inconfessáveis propósitos; quando sob o brilho suave do luar, torna-se o aconchego dos boêmios e românticos, envolvidos pelas doçuras do amor.

A divindade sábia e incomensurável do Criador estabeleceu regras básicas de justiça e convivência com a grandiosidade da criação. Tudo foi dividido com equidade. Se de um lado as agruras da seca trazem ao sertão a fome, o sofrimento e a morte, ao litoral a chuva traz a tragédia das águas, inundando de dor o desprotegido homem urbano. Se o mar banha as praias e traz um refrigério de paz e prazer aos seus veranistas, o sertão tem o privilégio do luar inusitado e encantador, sem qualquer similaridade com as noites metropolitanas, cujas montanhas de cimento ofuscam e impedem o deleite do luar.

A caatinga, baixa ou rasteira, no crepitar dos seus galhos secos e sol implacável, parece esperar os estertores finais de uma vida de seca, como se hibernasse à espera de uma gota da chuva salvadora. Durante o dia os buracos no solo ou as lapas de pedras se tornam no esconderijo protetor dos répteis, que fogem do calor abrasador do sertão; à noite, por entre os gravetos e cipós retorcidos eles saem à caça ou simplesmente buscam a contemplação do luar, favorecidos na sua pequenez pela natureza que desfolhou as árvores, como se lhes abrissem as cortinas da beleza e do encantamento. 

Tenho o privilégio de ser sertanejo por adoção espontânea. A experiência com o solo e a gente sertaneja trouxe-me lições de sensibilidade de como é viver e sentir o sertão, com as suas carências e grandiosidades. Em Uauá, prazerosamente, tive a honra de conhecer uma figura da maior magnitude moral, autodidata das letras e das palavras, cujo nome identifica com galhardia a sua terra e enriquece uma convivência cultural: Coronel Jerônimo Rodrigues Ribeiro.

Voltei, novamente para o sertão de Uauá, sem jamais ter saído dele, espiritualmente. Voltei, para a contemplação de sua beleza maior e de incomensurável magnitude: o Luar do Sertão. Como disse Catulo da Paixão Cearense: Esse luar cá da cidade, tão escuro, não tem aquela saudade, do luar do sertão”.

Superada a tragédia dessa triste Pandemia, espero voltar, e não economizarei palavras sobre esse extraordinário Povo Sertanejo, que tem uma fonte de sabedoria e de simplicidade, inesgotável, para encantar o mundo inteiro, se necessário for.

Autor: Adm. Agenor Santos, Pós-Graduação Lato Sensu em Controle, Monitoramento e Avaliação no Setor Público – de Salvador - BA.

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