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Artigo – O discurso e a realidade

07 de Feb / 2021 às 23h00 | Espaço do Leitor

A semana foi bastante movimentada no cenário político nacional, com as eleições para as presidências do Senado e da Câmara. O surgimento inicial de tantos e tão fracos nomes - salvo algumas exceções -, num total de 9 concorrentes em cada Casa, demonstrou que o elevado número de candidatos inscritos, longe de ensejar o convencimento de uma notável disputa democrática, passou a ideia da existência oculta da tradicional barganha, em que o parlamentar fantasia o interesse pela disputa e a candidatura é retirada em cima da hora. Então, o seu apoio e os votos do partido simplesmente são repassados na operação conhecida como “toma lá dá cá”, principalmente por ser o voto secreto. Num português gozador, coisas de malandros!!!

Dizem as más línguas, que no silêncio dos bastidores muitas verbas das tradicionais Emendas Parlamentares tiveram as suas liberações asseguradas, ou cargos prometidos. Sempre aconteceu nos governos da Esquerda, e com a Direita não tem sido diferente. As práticas nocivas estão sempre presentes nos atos e fatos do Poder Público, invariavelmente, corrompendo pelos agrados de diversos matizes.

Na condição de ex-Deputado Federal ninguém melhor do que o próprio Bolsonaro, para saber usar das sutilezas sempre presentes nas horas que antecedem a uma disputa dessa natureza, e com habilidade mexer com a sensibilidade interesseira de deputados e senadores votantes. Seria uma ingenuidade não se perceber a intenção maldosa contida nas suas declarações, em 29/01, quatro dias antes da votação: “Se tiver um clima no Parlamento, pelo o que tudo indica as duas pessoas que nós temos simpatia devem se eleger, não vamos ter mais uma pauta travada, a gente pode levar muita coisa avante. Quem sabe, até ressurgir os Ministérios, esses Ministérios”. Fazia referência à elevação das Secretarias da Cultura, Pesca e Esportes à categoria de Ministérios. Para quem começou com o louvável número de 15 Ministérios, já está com 23 e quer mais 3, chegaremos em breve aos 39 do PT de Dilma Roussef!

Mesmo que tenha voltado atrás menos de 24 horas depois - o que não se constitui em novidade -, pelas idas e vindas das suas medidas, a verdade é que a semente das más intenções de recriar Ministérios estava plantada. Isso despertava nos votantes a sedução pelo poder e a natural expectativa do leilão de novos cargos, e para o governo bastava esperar os frutos. E eles chegaram com o doce resultado que surpreendeu pelos números: na Câmara de Deputados, Arthur Lira (PP-AL) venceu com 302 votos contra 145; e no Senado Federal, o Senador Rodrigo Pacheco (DEM-MG) venceu com 57 votos a 21.  Desnecessário dizer que ambos tiveram o apoio do Presidente. O resultado não reflete prestígio, mas habilidade nas negociações! Falar em habilidade, é o mesmo que lembrar a frase: atirar com a pólvora dos outros. Porque, tudo isso, quem paga somos nós contribuintes.

Embora seja ainda prematuro para definir o real perfil dos novos Presidentes do Legislativo, espera-se deles que o desempenho corresponda às mensagens contidas nos discursos pós vitória, de respeito à independência dos Poderes da República, apoiar medidas voltadas ao desenvolvimento econômico, fortalecimento do sistema de saúde nacional e maior determinação do Estado no combate à Pandemia.

O Presidente da Câmara, que além da responsabilidade de administrar uma Casa com 513 Deputados, ostenta o privilégio de ser o segundo na hierarquia de substitutos do Presidente da República (após o Vice-Presidente, naturalmente), não se admite a decisão emotiva de logo no primeiro ato após a posse, determinar a anulação do último ato do seu antecessor, o Rodrigo Maia, e horas depois cancelar a sua decisão, porque precipitada! Parece que no sistema essa insegurança passa de pai para filho na cadeia política?

Outro mau exemplo do Arthur Lira, foi comemorar festivamente a vitória, em aglomeração com mais de 300 pessoas, com apertos de mão e muitos abraços, e sem uso de máscaras, num total contraponto a tanta preocupação com o COVID-19 exibida no seu discurso solene. É preciso que se identifique nessas autoridades um mínimo de coerência entre O DISCURSO E A REALIDADE! E aqui cabe a pergunta: Quem pagou essa farra?

Autor: Adm. Agenor Santos, Pós-Graduação Lato Sensu em Controle, Monitoramento e Avaliação no Setor Público – de Salvador - BA.

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