RedeGN - Artigo – A verborreia palaciana

Artigo – A verborreia palaciana

Para começo de conversa gostaria de lembrar o cronista Acordadinho que, eventualmente, para melhor entendimento do seu leitor quanto a algum título mais complexo, sempre opta por reproduzir a definição etimológica de alguma palavra, e assim o farei com o título acima: VERBORREIA - “Psicopatologia. Imposição interna e compulsiva para falar, que fala muito, de modo exagerado e compulsivo, ocasionando em certos casos de neurose e psicose”.

O Brasil passa por uma fase da sua história político-administrativa que poderia até ser considerada como interessante, se não estivesse mais para intrigante. Isso porque, tendo uma população de 210 milhões de habitantes, com variados níveis culturais, mas com um triste registro estimado de 11 milhões de analfabetos ou 6,6%, na faixa acima de 15 anos, e 40,8% das crianças brasileiras entre 6 e 7 anos que não sabiam ler ou escrever em 2021 (conforme a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua-PNAD-Contínua, do IBGE), era de se esperar que palavreados impróprios e inadequados, emanassem das pessoas de linguajar tosco, com excesso de grosseria e indelicadeza, e nunca da autoridade maior do país, ou seja, o seu Presidente da República! 

Ora, o “mito” chega a ser tão convincente no seu nível de baixaria linguística, que pessoas qualificadas e de onde não seria de se esperar, jamais, qualquer aprovação a atitudes desse tipo, utilizam uma expressão em sua defesa que já se tornou recorrente: “o homem acabou com a corrupção e está trabalhando muito... Só porque exagera nas palavras, ou fala uns palavrões”! Tolerância inconcebível, visto que dos filhos em casa exigem respeito no que fala, enquanto o presidente... esse pode! Francamente, é melhor não entender!

Geralmente o povo acredita que o fato de chegar à Presidência, de repente o ocupante do cargo já se torna alguém superdotado, culturalmente perfeito e habilitado no domínio de todo o conhecimento indispensável ao bom desempenho da função. Diante dessa expectativa, não concebe que o Presidente desconheça qual a naturalidade do cearense Padre Cícero, chamando-o de pernambucano durante a “live”, e reiterando que o nordestino é “pau-de-arara”. Isso é simplesmente ridículo, para não dizer verborrágico!

No sentido de suprir essas eventuais carências, é que a função é cercada de uma gama de Assessores habilitados a passar-lhe - até mesmo ao pé do ouvido -, conselhos e informações úteis visando evitar o cometimento de falhas graves ou ridículas, como essa. Talvez a sua impulsividade e autoridade estejam se sobrepondo aos Assessores diretos que, muitas vezes, são constrangidos ao silêncio.

Para quem está em permanente campanha eleitoral, mesmo na importante ocasião das inaugurações oficiais, seria de S. Excelência controlar a sua loquacidade verbal e evitar ofender as pessoas da região visitada, como agora ocorreu no Nordeste, quando repetiu, sempre entre risos, o que disse durante a sua “live”, pejorativamente, de que o nordestino é “pau-de-arara, arataca e cabeçudo”.

Isso provocou reações em toda a região Nordeste. O Presidente do Consórcio Nordeste, Governador Paulo Câmara, de Pernambuco (PSB-PE), disse: “Essa reiterada prática de repetir estigmas e preconceitos só contribui para manter o país dividido [...] respeite o povo do Nordeste”.

A reserva acumulada de impropriedades supera todas as expectativas. Mas, uma delas dita durante a semana passada, em entrevista aos repórteres, supera tudo: “Impressionante. Daqui a pouco o cara brocha em casa e me culpa”! E os risos se sucedem!

Pelo que se tem notado, geralmente os apoiadores acham que tudo que o Presidente faz está correto e, obviamente, rejeitam qualquer tipo de oposição a esse perfil. Só que a análise aqui exposta nada tem de político-partidário, mas uma visão de mínimos princípios éticos que deveriam ser praticados no exercício do cargo. Ou será que o Excelentíssimo Senhor Presidente não sabe a dimensão do cargo que ocupa? Aqui é onde está o “X” da questão.

Autor: Adm. Agenor Santos, Pós-Graduação Lato Sensu em Controle, Monitoramento e Avaliação no Setor Público - Aposentado do Banco do Brasil – Salvador - BA.