RedeGN - "Muita água. É a construção de um falso flagelo que legitima a gestão predatória do que sobra do rio São Francisco", alerta jornalista

"Muita água. É a construção de um falso flagelo que legitima a gestão predatória do que sobra do rio São Francisco", alerta jornalista

A Canoa de Tolda e o InfoSãoFrancisco lançam proposta e convidam as pessoas do Baixo São Francisco ou de passagem a participar de elaboração de foto reportagens colaborativas: uma tentativa de resposta à enchente de fake news que insistentemente inundam as margens, cabeças e mentes.

Desde o dia 16 de janeiro, o rio São Francisco (no seu trecho Baixo) volta a ter as mesmas vazões da regularização anterior a 2012 (cerca de 2.000 m³/s – dois mil metro cúbicos por segundo), antes da brutal redução das águas por imposição do setor elétrico em 2013, não considerando os picos de vazão ocorridos até o presente.

Essa pequena subida das águas produz uma situação temporária, porém consideravelmente simbólica.

As águas que correm entre Xingó e o oceano terão o volume que até então era aquele que vinha sendo mantido desde 1979/80 com a construção da UHE Sobradinho até o final de 2012. Ainda que regularizado, sem cheias, o Velho Chico contava com um pouco mais de água.

No entanto, em relativamente pouco tempo e graças, sobretudo, à veiculação desconstrutiva de informações sem qualquer valor pelas diversas mídias sociais na internet, a população do Baixo São Francisco vem apagando de sua memória o que era o rio “normal” (para os padrões da regularização), com um volume de água consideravelmente maior do que aquele hoje em vigor.

A borracha na memória também contou com o desserviço promovido por veículos de comunicação que, infelizmente, não produzem suas matérias em evidências, dados científicos e/ou oficiais ou ainda em informações factuais devidamente comprovadas.

Vamos lembrar que, com a retirada, pelo Comitê da Bacia, da vazão mínima de 1.300 m³/s do Plano de Bacia do Velho Chico, a vazão mínima, exatamente com almejava o setor elétrico, foi reduzida para 700 m³/s pela ANA – Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico com a Resolução 2.081/2017 e pelo IBAMA na renovação da LO – Licença de Operação da UHE Xingó.

A sociedade, lamentavelmente, se silenciou, se curvou e incorporou ao seu dia a dia as vazões indignas de ainda menos água, chegando a patamares de 660 m³/s, o que, em 2017, era uma situação completamente anormal e provocava indignação. Não mais.

Esse lamentável cenário fez com que o enquadramento, por parte da sociedade, de que qualquer modificação da vazão algo mais elevada, fosse equivocadamente percebida como “muita água”, o que de fato não é.

Um possível incremento da vazão em nada extraordinário passou a ser considerado como prejudicial.

A visão catastrófica é propagada para demais regiões do Brasil e favorece, tão somente, o predatório modelo de gestão das águas e território que se vê fortalecido para manter retidas as águas que passam a ser “uma bagaceira”, no falar local.

A profusão de imagens de ocupações irregulares no leito e planície de inundação do rio em situação de alagamento também favorecem a montagem do cenário: é a construção de um falso flagelo que legitima a gestão predatória do que sobra do rio São Francisco.

Não esquecer: quando Xingó opera com as seis máquinas (cada qual necessita de 500 m³/s de vazão), a vazão no Baixo fica algo acima de 3.000 m³/s, o que não é uma cheia.

Portanto, é importante refletir sobre a diferença desse valor e o máximo que será praticado a partir do dia 24, de 4.000 m³/s. Seria de fato uma cheia ou uma água “encorpada”?

Tema: As Águas de 2022: A partir das considerações sobre a perda da Memória das Águas, o InfoSãoFrancisco e a Canoa de Tolda estão promovendo uma série de fotorreportagens colaborativas no Baixo São Francisco, onde o objetivo é a captura e publicação de imagens da vida e do panorama ribeirinhos em três situações onde o espelho d’água entre Xingó e a foz terá um “de retorno ao passado” anterior a 2012.

Um elemento do passado no presente (a configuração das águas) onde é indispensável o entendimento crítico de que significa uma vazão maior em um rio completamente detonado: são 42 anos de passivo da construção de Sobradinho e todas as demais intervenções no Velho Chico.

As foto reportagens buscam apresentar prioritariamente, o registro da visão das pessoas da região ou daquelas que por aqui se encontram nesse espaço temporal.

Serão três momentos/temas básicos para a produção das imagens nesta primeira edição do O Baixo pelo Baixo :

Baixo São Francisco 2.000 – Vazões que ocorrerão entre hoje, dia 16 e a manhã do dia 18. Atenção: as vazões deverão chegar à região de Penedo e Neópolis em torno de 30/48 horas, aproximadamente.

Baixo São Francisco 3.000 – Vazões que ocorrerão nos dias 20 e 22. Atenção: as vazões deverão chegar à região de Penedo e Neópolis em torno de 30/40 horas, aproximadamente.

Baixo São Francisco 4000 – Vazões que ocorrerão partir do dia 24. Atenção: as vazões deverão chegar à região de Penedo e Neópolis em torno de 25/30 horas, aproximadamente.

Assim, estamos convidando pessoas de qualquer idade (desde que possam produzir suas imagens) que tenham motivação para documentar, nessas datas acima mencionadas, seus lugares, suas movimentações pelo rio, margens, povoações, cidades, conversas com outras pessoas, suas visões e interpretações de tais momentos registrados.

Umas poucas regras:

1- Todas as imagens deverão conter o rio São Francisco;

2- Poderão ou não ter legenda e, neste último caso, procurando o mais sintético possível. É interessante, se não houver legenda, apenas a localização.

3- As fotos, em cor ou preto e branco, deverão ser acompanhadas pela data e o nome de como a pessoa deseja ser identificada.

4- As fotos (com celular ou câmera fotográfica) deverão ter qualidade máxima para que possam ser ajustadas ao sistema do site. Não serão feitos quaisquer cortes, respeitando integralmente o formato enviado capturado.

5- Nesta primeira edição, serão recebidas até 10 (dez) fotos por fotógrafa(o), para seleção e incorporação à publicação (entre 20 a 24 fotos);

6- As fotos deverão ser encaminhadas como anexos para o e-mail: canoadetolda@canoadetolda.org.br

Pedimos a compreensão das ribeirinhas e ribeirinhos fotógrafos pois talvez nem todas as imagens sejam publicadas nesta primeira edição.

Explicando: as imagens serão selecionadas pela nossa editoria de modo a garantir, além do espaço democrático, uma boa qualidade das fotos que irão para a publicação. No entanto, caso tenhamos imagens em quantidade e com produções que sejam consideradas relevantes, poderão ser organizadas outras matérias em mais partes da foto reportagem.

De acordo com o resultado desta primeira edição, o espaço será permanente no InfoSãoFrancisco.

A Canoa de Tolda e o InfoSãoFrancisco contam com a participação de todas e todos.

 

Carlos Eduardo Ribeiro Jr/Canoa de Tolda e o InfoSãoFrancisco