RedeGN - Artigo: “Nada não está tão ruim...”

Artigo: “Nada não está tão ruim...”

“...que não possa piorar”. Embora seja um ditado popular, com sentido e conotação específica, a sua escolha como tema, nesta oportunidade, decorre do fato de que o Brasil passa por um momento trágico da sua história, e não poderia ser mais inadequada e infeliz a sua citação em discurso pelo Presidente da República, nesta semana. Isso porque num período de dor e sofrimento pela perda de milhares de brasileiros para o COVID-19, com uma forte carga emocional causada pela falta de emprego e alimento, e uma saúde cheia de carências, seria de se esperar do Chefe do Estado brasileiro, palavras de fé, confiança e otimismo para a superação das dificuldades, nunca afirmar, com ar de indiferença, que ainda pode piorar muito mais!

Embora, aquilo que foi dito, apenas corrobora frases já enunciadas pelo Presidente em outras ocasiões graves da Pandemia, que merecem ser relembradas: a) “Vamos encarar a realidade. Todos nós vamos morrer um dia”; b) “Estão superdimensionando o poder desse vírus”; c) “Não sou coveiro”; d) Sobre a vacina, em 17/12/20: “Se você virar um chi... virar um jacaré, é problema de você, pô. Não vou falar outro bicho, porque vão pensar que eu vou falar besteira aqui, né?”; entre outras expressões minimizadoras e divergentes diante de uma realidade atroz para o País.

A triste verdade é que os conceitos oficiais da cúpula do Governo Federal são conhecidos desde o início e durante o crescimento da Pandemia, agravada pelos atritos com Prefeitos e Governadores. Isso para não falar da insegurança e ineficiência na escolha de Ministros da Saúde (quatro em dois anos e meio de Administração!), justamente o Ministério responsável pela saúde e condução das medidas adequadas no combate ao vírus. Culpar o STF por reconhecer poder de condução aos Governadores, é choradeira inconsequente.

Mas, o que esperar de alguém que todos os dias traz palavras de ordem negativas, ameaçadoras, eivadas de ódio, desconexas, às vezes chulas? O que esperar de alguém que se senta na cadeira todos os dias de costas para uma realidade vista pelo mundo todo? O que esperar de um governante que tem fixação em armas e se diverte com gestos grosseiros de apontar armas, como se não existissem outras formas e símbolos para agradar aos seus apoiadores?    
Liberar os recursos federais para pagar a compra das vacinas – que no fundo, são oriundos do contribuinte brasileiro -, não isenta o governo da responsabilidade pela omissão às providências iniciais prioritárias, no plano internacional, para a compra da vacina, que poderia ter poupado a vida de muitos, e as lágrimas de tantas famílias atingidas. O que inquieta a todos é a falta de tato e tratamento respeitoso com a situação de calamidade instalada desde o primeiro momento da “gripezinha” (cujo criador dessa expressão já foi infectado, dizem!). 

O que comove e impressiona é a percepção de que há pessoas de relativo nível social e cultural, que só pelo fato de se identificarem com o perfil político-administrativo do atual governo, sentem-se na obrigação inviolável de defenderem a mesma ideologia contra a vacina, muitos chegando a se recusarem a vacinar, como forma de demonstrar fidelidade ao pensamento do líder! Isso, sim, pode ser considerado um sectarismo que supera todos os limites da insanidade. Sinceramente essa parte chega a nos envergonhar ao lembrar alguns tiranos que já passaram pela história.

No campo da universalidade democrática há lugar para todas as tendências ideológicas, seja de Direita, Centro ou Esquerda. Impõe-se, contudo, que haja respeito e compreensão no eventual debate desses pontos contraditórios, evitando-se os conflitos que maculam de forma indesejável as relações. Nesse particular, o “bolsonarismo” vem se notabilizando por uma odiosa intolerância às opiniões contrárias, logo classificando as pessoas como petistas, “esquerdopatas” ou comunistas, num visível desequilíbrio avaliativo na forma de lidar com as divergências. 

Oxalá a caminhada eleitoral, que visivelmente já se iniciou em meio a uma pandemia que não se sabe a duração, tenha a sua trajetória marcada pela ordem e o respeito, e que não se concretize a segunda parte da frase presidencial: “...QUE NÃO POSSA PIORAR”.  É bom mesmo, para toda a Nação, que o pior não aconteça!

Autor: Adm. Agenor Santos, Pós-Graduação Lato Sensu em Controle, Monitoramento e Avaliação no Setor Público – Salvador-BA.