REPORTAGEM ESPECIAL: MÚSICOS, POETAS E MORADORES DE CURAÇÁ REVELAM SENTIMENTO DE IDENTIDADE CULTURAL E VALORIZAÇÃO DA ARARINHA AZUL

As ararinhas-azuis são consideradas quase extintas na natureza desde o ano 2000, devido às ações de caçadores e traficantes de animais. “Digo: o real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia". 

A reflexão do escritor Guimarães Rosa provoca o sentimento dos moradores de Curaçá, Bahia. Explica-se: a Ararinha Azul nesta terça-feira 3 de março de 2020, retorna à caatinga. O repatriamento das aves identifica uma longa travessia e faz parte de um acordo de Cooperação Técnica entre o Insituito Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e a Association for the Conservation of Threatend Parrots (ACTP). Muitos ambientalistas e sociólogos questionam a parceria com o capital estrangeiro que está em ação no município e será  retratada reportagem também aqui nesta redeGN.

São cinquenta aves vindas da Alemanha. Rara, a espécie vai viver temporariamente em duas unidades de conservação: o Refúgio de Vida Silvestre da Ararinha-Azul (com 29,2 mil hectares) e a Área de Proteção Ambiental da Ararinha-azul (com 90,6 mil hectares), destinadas à reintrodução e proteção da espécie, e conservação do bioma da caatinga.

O sentimento de identidade e pertencimento ganha as ruas  e esquinas, teatro e salas de aula, margem do Rio São Francisco e bares, em Curaçá. O artista conhecido por Pardal mostra o seu talento retratando nas paredes a pintura da Ararinha Azul.  Um carro de som entoa os versos da canção Esperança Azul, dos poetas e compositores Fernadinho Ferreira, Demis Santana e Januário Ferreira.

"O meu desejo é te ver voando/O meu desejo é te ver voltar/Minha esperança é te ver voando/Da Serra da Borracha até a Serra do Juá... O semiárido está por ti em festa/O xique-xique sorri pro mandacaru/A sua volta é cada vez mais perto/seja bem-vinda ararinha-azul”.

Fernandinho Ferreira e Demis Santana, sempre juntos, durante toda esta travessia, desde que a última Ararinha Azul desapareceu dos sertões, são um dos principais responsáveis pela valorização e identidade da ave, para que ela não fosse esquecida, principalmente pelas novas gerações. 

Para os dois mestres a expectativa agora com o retorno da Ararinha Azul é provocar a união de todos e desenvolver políticas públicas associadas ao projeto Ararinha na Natureza que impactem de forma positiva no habitat das aves e contribua para a inclusão social e econômica das comunidades locais.

A estudante Ana Clara, 9 anos diz que assistiu filmes, palestras e agora vai viver um novo desafio. "Importante agora é manter viva as Ararinhas Azuis e continuar valorizando mais ainda. Para eu amar a Ararinha Azul foi essencial as amostras na sala de aula.", avalia Ana Clara.

O Professor Demis Santana confirma a reportagem do Blog Ney Vital redeGN essa disposição. “O retorno da Ararinha Azul representa o renascimento ambiental e cultural. Não é só os mais velhos, os adultos. Os jovens e adolescentes, que nunca viram uma ararinha-azul na vida, também começam a adquirir essa consciência do renascimento de nossa identidade".

Nos últimos anos, Demis Santana e Fernadinho viraram uma das vozes comunitárias mais ativas em defesa dos projetos que levam teatro, música e dança nas salas de aula, praças e ruas de Curaçá e região.

“Acreditamos no envolvimento de toda a comunidade. Há muita gente envolvida neste tema. Governos, empresas, ONGs, pesquisadores. Mas, depois que as aves forem soltas, os maiores parceiros serão os moradores. São eles que vão se tornar os guardiães das ararinhas”, ensina o professor.

Fernandinho Ferreira usa as linguagens e violão para unir os bons sentimentos, palavras e ações em torno da Ararinha Azul. Nascido em Barbalha, Ceará, vive há 25 anos no sertão. Ele é um dos criadores de oficinas de educação ambiental, leitura, dança e teatro com o objetivo de compartilhar conhecimento com as crianças e adolescentes.

O comerciante Ananias Mendes, 80 anos, afirma que "eles, Fernandinho e Demis são a força que movimenta a cultura de Curaçá e que o retorno da Ararinha Azul vai incrementar um novo paradigma ao município".

O músico, geólogo e empresário Luiz do Humaytá, gaúcho e que possui o título de Cidadão de Curaçá, aponta também que o retorno da Ararinha Azul representa uma nova chance que a natureza dá ao homem, para aprender a valorizar e respeitar o patrimônio cultural que vai ajudar a Curaçá criar novas oportunidade de emprego e geração de renda.

Pesquisadores apontam que atualmente, existem em torno de 150 exemplares da Ararinha Azul espécie em cativeiros no Brasil e exterior. Daí a importância do retorno da Ararinha Azul, aos céus de Curaçá.

Com sotaque carregado, o vaqueiro Adonário Martins Leite, 72 anos, ano passado assistiu a um evento no Sítio Melancia. Adonário é um dos moradores da região que conviveram com a ararinha-azul voando livre nos céus e entre as matas secas da Caatinga.

“Elas voavam em bando. Eram uma beleza só. Naquela época, não sabíamos o valor que elas tinham. Aos poucos, foram sumindo, por causa dos caçadores, até desaparecerem". Apaixonado pela Caatinga o vaqueiro com voz firme e gestos expressivos, ele garante que, com o retorno da ararinha à natureza, a história será outra. “Não vai ter caçador nenhum nessas matas. Se aparecer, a gente vai botar pra correr”, avisa Adonário, expressando um sentimento que invade corações e mentes de moradores da região.

“Sinto um sentimento que vem da nossa alma. Vivi e agora vou assistir o retorno da Ararinha Azul para Curaçá". A frase é da professora Maria Berenice, 56 anos. Ela conta que seus parentes na maioria vivem na Fazenda Melancia. "Tudo que é bonito emociona. E quando se trata da Ararinha Azul é vai voar na nossa caatinga, seu lugar natural e isto é maior ainda, emociona a alma"., finalizou 

Depois de um período de adaptação em viveiro, as Ararinhas Azuis serão, enfim, soltas na natureza, concretizando um sonho acalentado há anos pelos integrantes do Projeto de Reintrodução da Ararinha-Azul, coordenado pelo ICMBio e executado com a ajuda de parceiros do Brasil e do exterior.

ARARINHA AZUL: Descoberta no início do século 19 pelo naturalista alemão Johann Baptist von Spix, e exclusiva da Caatinga brasileira, a ararinha-azul (Cyanopsitta spixii) teve sua população dizimada pela captura e tráfico de animais silvestres. O último exemplar conhecido na natureza desapareceu em outubro de 2000, e até hoje não se sabe se morreu ou foi capturado por alguém. 

Desde então, os poucos exemplares que restaram em coleções particulares vêm sendo usados para reproduzir a espécie em cativeiro. Quase todos no exterior. A ararinha é endêmica da Caatinga e considerada uma das espécies de aves mais ameaçadas do mundo. Em 2000, a espécie é classificada como Criticamente em Perigo (CR) possivelmente Extinta na Natureza (EW), restando apenas indivíduos em cativeiro.

O ICMBio publicou em 2012 o Plano de Ação Nacional a Conservação da Ararinha-azul (PAN Ararinha-azul), cujos objetivos são o aumento da população manejada em cativeiro e a recuperação do habitat de ocorrência histórica da espécie, visando à sua reintrodução na natureza. 

Coordenado pelo Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Aves Silvestres (Cemave/ICMBio), o PAN Ararinha-azul teve como desdobramento a criação do Projeto Ararinha na Natureza, iniciativa que conta com a parceria da Vale e de organizações da sociedade civil sem fins lucrativos, como o Fundo Brasileiro para a Biodiversidade (Funbio) e a Sociedade para a Conservação das Aves do Brasil (SAVE Brasil), além de mantenedores da ararinha-azul dentro e fora do país, que trabalham para viabilizar a reprodução da espécie: a Association for the Conservation of Threatened Parrots (ACTP), na Alemanha; a Al-Wabra Wildlife Preservation, no Catar; os criadouros Fazenda Cachoeira, Nest e a Fundação Lymington, no Brasil.

Redação redeGN Fotos: Ney Vital